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Direito ao silêncio: a garantia que mais se perde por desinformação

Quase todo mundo conhece a frase de que se pode permanecer calado. Poucos sabem em que momentos ela vale, o que exatamente protege e por que usar essa garantia não autoriza ninguém a concluir nada contra quem a usou.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 19 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

De onde vem a garantia

O art. 5º, LXIII, da Constituição estabelece que o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado. O Código de Processo Penal desenvolve a regra no art. 186: depois de qualificado e cientificado do inteiro teor da acusação, o acusado será informado pelo juiz, antes de iniciar o interrogatório, do seu direito de permanecer calado e de não responder perguntas que lhe forem formuladas.

A garantia é a face visível de um princípio maior, o de que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. Por isso ela alcança mais do que o momento da prisão.

Onde a garantia se aplica

SituaçãoAlcance
Prisão em flagrante e delegaciaVale desde a abordagem, antes de qualquer pergunta sobre o fato
Interrogatório judicialVale, com advertência obrigatória pelo juiz
Audiência de custódiaVale, e o objeto ali é a legalidade da prisão, não o mérito
Processo administrativo disciplinarVale, conforme tratado em interrogatório no PAD
Comissão parlamentar de inquéritoVale quanto a perguntas que possam incriminar o depoente
Depoimento como testemunhaTestemunha tem dever de dizer a verdade, mas não é obrigada a se autoincriminar

O silêncio não pode ser interpretado contra quem o exerce

Esse é o coração da garantia, e está escrito no parágrafo único do art. 186 do Código de Processo Penal: o silêncio, que não importará em confissão, não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa. Se calar pudesse ser lido como indício de culpa, o direito seria uma armadilha. Por isso a decisão que condena precisa se apoiar em prova, e não na recusa do acusado em responder.

A mesma lógica vale na esfera administrativa. Comissão que registra em relatório que o servidor se recusou a esclarecer e extrai daí conclusão desfavorável está usando o silêncio como prova, o que é ponto de nulidade.

O que o silêncio não autoriza

  • Mentir sobre a identidade, porque identificar-se é obrigação e atribuir-se falsa identidade é crime (art. 307 do Código Penal); pela Súmula 522 do STJ, a conduta perante autoridade policial é típica ainda que em alegada autodefesa.
  • Ignorar a intimação sem orientação. A testemunha que falta pode ser conduzida e multada (CPP, arts. 218 e 219). O investigado ou réu não pode ser levado à força para ser interrogado, porque o STF declarou incompatível com a Constituição a condução coercitiva para interrogatório (ADPFs 395 e 444), mas a ausência do réu faz o processo seguir sem ele (art. 367). Na maioria dos casos, o caminho mais seguro é comparecer acompanhado de advogado e declarar que prefere não responder.
  • Impedir as provas que não dependem da colaboração ativa do investigado, como a busca autorizada ou a perícia sobre objeto apreendido; o que a garantia protege é a recusa em colaborar ativamente com a produção de prova contra si.
  • Obstruir a investigação, porque destruir prova ou orientar testemunha é conduta diversa, com consequências próprias.

Calar é sempre a melhor escolha?

Não. Existem casos em que a versão do acusado é a única fonte de contexto para um fato que, isolado, parece indefensável: legítima defesa, estado de necessidade, erro sobre a situação, ordem recebida. Nessas hipóteses, silenciar deixa a única narrativa nas mãos da acusação.

A decisão depende de saber o que existe nos autos, e é por isso que o acesso prévio ao procedimento vem antes da escolha. Falar sem conhecer a prova prejudica mais do que a própria escolha entre falar e calar.

O silêncio no inquérito não fecha a porta do acordo de não persecução penal. No Tema 1.303 dos recursos repetitivos, julgado em 12 de março de 2025, a Terceira Seção do STJ fixou que a confissão na fase de inquérito não é exigência do art. 28-A do CPP para o cabimento do ANPP, que é inválida a recusa da proposta com base na sua ausência e que a confissão pode ser formalizada no momento da assinatura do acordo, perante o Ministério Público, com a assistência da defesa.

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Como exercer na prática

  1. Informe que deseja ser assistido por advogado antes de responder sobre o fato.
  2. Identifique-se corretamente e forneça os dados de qualificação.
  3. Peça que conste do termo que você optou por não responder naquele momento.
  4. Não assine documento cujo conteúdo você não leu ou com o qual não concorda.
  5. Guarde cópia de tudo o que assinar, inclusive termos de compromisso e autos de exibição.

Silêncio e direito de consultar o processo

A escolha informada depende de acesso. Pela Súmula Vinculante 14 do STF, o defensor tem direito de acesso amplo aos elementos de prova já documentados no procedimento investigatório que digam respeito ao direito de defesa, e é esse acesso que transforma o silêncio de reação instintiva em estratégia. Quem foi chamado a depor encontra orientação em intimado para depor na delegacia. Quando a urgência é a liberdade, a discussão passa pelo habeas corpus, que corre em paralelo e não depende de o acusado ter falado ou não. A atuação do escritório está na página de advogado criminalista.

Fontes consultadas: Constituição Federal (Planalto); Código de Processo Penal (Planalto); Código Penal (Planalto); STJ, Tema 1.303 dos recursos repetitivos; STF, Súmula Vinculante 14; Súmula 522 do STJ.

Em caso de prisão em flagrante, o plantão atende a qualquer hora pelo WhatsApp.

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre direito ao silêncio

O silêncio pode ser usado contra mim?

Não. Pelo parágrafo único do art. 186 do Código de Processo Penal, o silêncio não importa confissão e não pode ser interpretado em prejuízo da defesa.

Posso ficar calado e depois falar?

Pode. O direito é exercido a cada ato, e nada impede que o acusado responda em momento posterior, depois de conhecer a prova dos autos.

Sou obrigado a comparecer se vou ficar calado?

Depende da sua condição. A testemunha é obrigada a comparecer. O investigado ou réu não pode ser conduzido à força para o interrogatório (STF, ADPFs 395 e 444), mas costuma ser mais seguro comparecer com advogado e exercer o silêncio, depois de examinar o que consta dos autos.

Posso me recusar a dizer meu nome?

Não. Identificar-se é obrigação, e atribuir-se falsa identidade é crime (art. 307 do Código Penal), mesmo em alegada autodefesa, pela Súmula 522 do STJ.

Vale o direito ao silêncio no processo disciplinar?

Vale. O direito de não produzir prova contra si mesmo alcança a esfera administrativa, e o uso do silêncio como prova é ponto de nulidade.

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