Pular para o conteúdo
Ricardo Feistler Advocacia Especializada

Início / Servidor público / Improbidade administrativa

Guia · Servidor público

Improbidade administrativa: o que mudou com a Lei 14.230/2021

Desde a reforma de 2021, só há improbidade administrativa com dolo, isto é, com a vontade de praticar o ato ilícito. Erro, negligência ou falha de gestão, sem essa intenção, deixaram de ser improbidade. A reforma também mudou as penas e a prescrição.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 31 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

O que é improbidade administrativa?

É o ato do agente público, ou do particular que participa com ele, que causa enriquecimento ilícito, prejuízo ao erário ou viola princípios da Administração, nas hipóteses descritas na Lei 8.429/1992, com a redação dada pela Lei 14.230/2021. A ação é civil, e não criminal, embora o mesmo fato possa gerar também um processo penal.

A exigência de dolo

A Lei 14.230/2021 acabou com a improbidade culposa. Hoje, os três tipos de ato (arts. 9º, 10 e 11) exigem dolo, definido como a vontade livre e consciente de alcançar o resultado ilícito. A lei diz expressamente que o simples exercício da função, sem prova do fim ilícito, não configura improbidade (art. 1º, § 3º), e que a divergência na interpretação da lei, baseada em jurisprudência, também não (art. 1º, § 8º). Ao julgar as ADIs 7156 e 7236, o STF manteve essa regra com ajustes: a proteção vale quando a interpretação adotada pelo agente se apoia em entendimentos, ainda que não pacificados, do próprio STF ou dos tribunais superiores ou, na falta deles, em decisões colegiadas de tribunais de segundo grau.

No Tema 1199, o STF confirmou a exigência de dolo e decidiu que a revogação da modalidade culposa não atinge condenações definitivas, mas se aplica aos processos ainda sem trânsito em julgado. Nesses casos, o juiz precisa verificar se houve dolo.

Quais são os tipos de ato de improbidade?

O art. 9º trata do enriquecimento ilícito, como receber vantagem indevida em razão do cargo. O art. 10 trata do prejuízo ao erário, como permitir a compra de bens por preço acima do mercado. O art. 11 trata da violação de princípios, e aqui está outra mudança importante: a lista do artigo passou a ser taxativa. Só as condutas descritas nele configuram improbidade por violação de princípios.

Quais são as penas?

As penas variam conforme o tipo de ato e incluem perda dos bens acrescidos ilicitamente, ressarcimento do dano, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos, multa e proibição de contratar com o poder público. Pela lei reformada, a suspensão dos direitos políticos pode chegar a 14 anos no enriquecimento ilícito e a 12 anos no prejuízo ao erário; na violação de princípios, as penas ficaram restritas a multa e proibição de contratar. O juiz deve aplicar as sanções de forma proporcional à gravidade do fato. No julgamento das ADIs 7156 e 7236, em 24 de junho de 2026, o Plenário do STF decidiu que a perda alcança todas as funções públicas do condenado, e não só a exercida na época do fato, salvo exceção fundamentada pelo juiz, e que o ressarcimento do dano pode ser exigido de forma solidária dos responsáveis, observadas as circunstâncias de cada caso.

Improbidade administrativa é crime?

Não. A ação de improbidade é de natureza civil. O mesmo fato pode, porém, configurar crime, como peculato ou corrupção, e ser julgado também na esfera penal. A absolvição no processo penal não encerra, por si só, a ação de improbidade sobre os mesmos fatos. Em 25 de junho de 2026, no julgamento das ADIs 7156 e 7236, o STF limitou esse efeito aos casos em que a decisão criminal transitada em julgado reconhece que o fato não existiu, que o acusado não foi o autor ou que ele agiu em legítima defesa, em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito, e ao arquivamento ou à rejeição da denúncia por esses três últimos fundamentos.

Está passando por isso agora? Conte o seu caso pelo WhatsApp

Qual é o prazo de prescrição?

A Lei 14.230/2021 fixou a prescrição em 8 anos, contados do fato ou, nas infrações permanentes, do dia em que cessou a permanência. A mesma lei previu que, interrompida a prescrição, o prazo recomeçaria pela metade, em 4 anos (art. 23, § 5º). O STF declarou essa redução inconstitucional ao concluir, em 1º de julho de 2026, o julgamento das ADIs 7156 e 7236, manteve as hipóteses de interrupção previstas na lei e fixou o prazo máximo de 20 anos para a prescrição das ações de improbidade. No Tema 1199, o STF já havia decidido que o novo regime prescricional não retroage; ele vale a partir da publicação da lei.

A ação de ressarcimento ao erário fundada em ato doloso de improbidade continua imprescritível, conforme o STF (Tema 897, Plenário, 8 de agosto de 2018).

Em 9 de setembro de 2026, a Segunda Turma do STJ decidiu, no AREsp 3.162.115-PR (Informativo 904), que essa imprescritibilidade não depende de condenação prévia por improbidade, mas exige a demonstração, na própria ação de ressarcimento, de ato doloso tipificado na Lei 8.429/1992, com contraditório e ampla defesa. Por isso a prescrição das sanções do art. 12, ou a absolvição quanto a elas, não impede por si o pedido de ressarcimento. A decisão é de Turma e não vincula.

Como funciona a defesa?

Depois da reforma, a defesa discute a prova do dolo, para mostrar que houve erro, interpretação razoável da lei ou decisão de gestão; o enquadramento da conduta, principalmente no art. 11, que ficou taxativo; e a prescrição, contada conforme a data dos fatos e as regras vigentes na época.

A lei também passou a permitir o acordo de não persecução civil, que pode encerrar o processo mediante ressarcimento e outras condições, quando for vantajoso para o interesse público.

O escritório atua na defesa do agente público na ação de improbidade e no processo disciplinar sobre o mesmo fato; veja a página do advogado para servidor público.

Bloqueio de bens

A Lei 14.230/2021 condicionou a indisponibilidade de bens à demonstração de perigo de dano irreparável ou de risco ao resultado útil do processo (art. 16, § 3º). Na sessão de 24 de junho de 2026, no julgamento da ADI 7156, o STF declarou inconstitucionais os trechos que condicionavam o bloqueio à demonstração concreta desse risco, afastou em parte a regra que impedia presumir a urgência, admitiu o bloqueio quando houver indícios especialmente fortes da irregularidade, mesmo sem urgência demonstrada, e entendeu que a medida pode alcançar o valor necessário para reparar o dano e o patrimônio obtido por enriquecimento ilícito. O bloqueio continua dependendo de decisão fundamentada, e o excesso pode ser questionado no processo.

Exemplos do que é e do que não é improbidade hoje

Receber dinheiro de uma empresa para favorecê-la numa licitação continua sendo improbidade por enriquecimento ilícito, e costuma ser também crime de corrupção. Direcionar uma contratação para pagar mais caro, sabendo do sobrepreço, é improbidade por dano ao erário. Já assinar um contrato com base em parecer jurídico favorável, que depois se mostra errado, sem prova de que o gestor queria o resultado ilícito, não é mais improbidade depois da reforma. A diferença está na prova do dolo.

Quem pode responder por improbidade?

O agente público, em sentido amplo: servidores efetivos, comissionados, empregados públicos, agentes políticos e quem exerce função pública, ainda que temporariamente. O particular que induz ou concorre dolosamente para o ato também responde (Lei 8.429/1992, art. 3º, na redação da Lei 14.230/2021). A ação pode ser proposta pelo Ministério Público e pelo ente público lesado: a reforma tentou dar exclusividade ao Ministério Público, mas o STF manteve a legitimidade dos entes públicos (ADIs 7042 e 7043).

Improbidade e processo disciplinar ao mesmo tempo

O mesmo fato pode gerar ação de improbidade, processo disciplinar e ação penal. São esferas independentes, com provas e regras próprias. Uma absolvição na improbidade por falta de dolo não impede, por si, a punição disciplinar, e o contrário também vale. Por isso, a estratégia de defesa deve ser pensada em conjunto, evitando declarações num processo que prejudiquem o outro.

Recebeu portaria, notificação ou decisão? Mande o documento pelo WhatsApp antes de responder.

Enviar o documento

Dúvidas frequentes

Perguntas sobre improbidade administrativa

Servidor pode perder o cargo por improbidade?

Pode. A perda da função pública é uma das penas da Lei 8.429/1992, aplicada conforme a gravidade do ato, e o STF decidiu, no julgamento das ADIs 7156 e 7236, que ela alcança todas as funções públicas do condenado, salvo exceção fundamentada pelo juiz. O mesmo fato também pode gerar um PAD.

A nova lei vale para processos antigos?

A exigência de dolo vale para processos sem condenação definitiva. O novo prazo de prescrição, não: ele vale a partir da publicação da lei (STF, Tema 1199).

Erro de gestão é improbidade?

Não, se não houver dolo. A Lei 14.230/2021 afastou a improbidade culposa e diz que divergência na interpretação da lei não configura improbidade.

Qual o prazo de prescrição da improbidade administrativa?

Oito anos, contados do fato ou do fim da permanência (Lei 8.429/1992, art. 23). Ao concluir o julgamento das ADIs 7156 e 7236, em 1º de julho de 2026, o STF declarou inconstitucional a regra que fazia o prazo recomeçar pela metade, em quatro anos, depois da interrupção, e fixou em 20 anos o prazo máximo de prescrição das ações de improbidade. O novo regime vale a partir da publicação da Lei 14.230/2021 (STF, Tema 1199).

Mais sobre servidor público

Guia

PAD do servidor público

Fases, prazos, defesa e recursos no processo administrativo disciplinar.

Ler o guia →
Guia

Aposentadoria do servidor público

Regras da EC 103/2019, transição e revisão.

Ler o guia →
Guia

Assédio moral no serviço público

Como provar, indenização, PAD contra o assediador e prescrição.

Ler o guia →
Guia

Abandono de cargo

Quantos dias configuram, inassiduidade habitual e defesa.

Ler o guia →
Artigo

Estágio probatório

São 2 ou 3 anos? Avaliação, reprovação e recondução.

Ler o artigo →
Artigo

Anular demissão de servidor

O que a Justiça revê no PAD e como funciona a reintegração.

Ler o artigo →
Artigo

Excesso de prazo no PAD

Prazo do PAD, Súmula 592 e prescrição.

Ler o artigo →
Artigo

Afastamento preventivo no PAD

Quanto tempo pode durar e se o salário continua.

Ler o artigo →
Artigo

Independência das instâncias

Demissão antes da sentença penal e quando a absolvição vale no PAD.

Ler o artigo →
Artigo

Remoção por motivo de saúde

Do servidor ou de alguém da família, inclusive depressão.

Ler o artigo →
Artigo

Devolução de valores pelo servidor

Temas 531 e 1009 do STJ: quando é preciso devolver.

Ler o artigo →
Artigo

Sindicância e PAD: diferença

Sindicância pode punir? Pode virar PAD?

Ler o artigo →
Artigo

Servidor pode ter empresa ou ser MEI?

Sócio, cotista, MEI e as exceções da Lei 8.112/1990.

Ler o artigo →
Artigo

Redução de jornada para filho com deficiência

Horário especial sem compensação e sem corte de salário (Tema 1097).

Ler o artigo →
Artigo

Insalubridade do servidor

Laudo, percentuais, retroativo e como cobrar.

Ler o artigo →
Artigo

Abono de permanência

Quem tem direito, aposentadoria especial, imposto de renda e retroativo.

Ler o artigo →
Artigo

Pensão por morte de servidor

Quem tem direito, cálculo da cota familiar e duração.

Ler o artigo →
Artigo

Readaptação do servidor

Limitação física ou mental, novo cargo e remuneração.

Ler o artigo →
Artigo

Desvio de função do servidor

Diferenças salariais (Súmula 378 do STJ) e como provar.

Ler o artigo →
Artigo

Exoneração a pedido

Pedir demissão do serviço público: direitos e cuidados.

Ler o artigo →
Artigo

Peculato

O que é, tipos, pena, peculato culposo e defesa.

Ler o artigo →
Decisão comentada

Remoção por saúde e apoio familiar

STJ 2026: remoção por saúde com base no apoio familiar, mesmo havendo tratamento na cidade atual.

Ler o artigo →
Artigo

Licença-prêmio em pecúnia

Conversão em dinheiro da licença-prêmio não gozada pelo servidor aposentado: quem tem direito, prazo de cinco anos e o que pedir.

Ler o artigo →
Artigo

PAD de comissionado

Exoneração livre não dispensa processo quando há acusação: destituição, registro e efeitos futuros.

Ler o artigo →
Artigo

Interrogatório no PAD

O último ato da instrução: ordem prevista no art. 159, papel do advogado e o direito de calar.

Ler o artigo →
Decisão comentada

Prova emprestada no PAD

Interceptação e prova vinda do processo penal: os requisitos de uso e o que anula a apuração.

Ler o artigo →
Artigo

Acumulação indevida

Notificação, prazo de 10 dias, opção de boa-fé e o que muda quando quem aponta é o Tribunal de Contas.

Ler o artigo →
Artigo

Redução de salário do servidor

Irredutibilidade de vencimentos, o que o STF já julgou, descontos permitidos em lei e como reagir a um corte no contracheque.

Ler o artigo →
Artigo

Jornada reduzida com salário proporcional

Quem pode pedir, como o salário é calculado, o que a Administração pode negar e o que muda na rotina do servidor federal.

Ler o artigo →
Artigo

Prescrição no PAD

Prazos do art. 142 da Lei 8.112, quando a contagem começa, o que interrompe, a regra dos 140 dias e o prazo penal.

Ler o artigo →
Artigo

Cassação de aposentadoria

Quando a Lei 8.112 permite cassar a aposentadoria, o que o STF decidiu na ADPF 418 e como o aposentado se defende.

Ler o artigo →
Artigo

Remoção para acompanhar cônjuge

Requisitos do art. 36, III, a, da Lei 8.112, cônjuge empregado público ou aprovado em concurso e o que fazer se o pedido for negado.

Ler o artigo →
Artigo

Defesa escrita no PAD

Prazo de 10 ou 20 dias, prorrogação, revelia e estrutura comentada da defesa: preliminares, prescrição, mérito, provas e dosimetria.

Ler o artigo →
Artigo

Advertência e suspensão

Quando cabem, limite de 90 dias, conversão em multa, sindicância ou PAD, cancelamento do registro e como recorrer.

Ler o artigo →
Cidade

Servidor público em Cascavel

PAD, sindicância, suspensão, demissão e aposentadoria de servidores municipais, estaduais e federais da região.

Ver a página →
Artigo

Servidor público no Paraná

Servidores estaduais e municipais do Paraná: PAD da Lei 20.656/2021, penas do Estatuto, estágio probatório e aposentadoria.

Ler o artigo →
Artigo

Policial civil

Processo disciplinar na Corregedoria, afastamento, demissão, reintegração e investigação criminal por fato do serviço.

Ler o artigo →
Cidade

Servidor público em Foz do Iguaçu

Sindicância, PAD, penalidades e direitos de servidores municipais, estaduais e federais lotados em Foz do Iguaçu.

Ver a página →
Artigo

Integralidade e paridade

Quem se aposenta com a última remuneração e reajuste igual ao dos ativos, conforme a data de ingresso, a regra de transição e o ente.

Ler o artigo →
Artigo

Isenção de IR por doença grave

Quem tem direito à isenção do imposto de renda por doença grave no serviço público e nas Forças, o laudo exigido, a situação de quem está na ativa, o pedido ao órgão pagador e a restituição dos últimos cinco anos.

Ler o artigo →
Artigo

Aposentadoria especial do servidor

Regras da EC 103/2019 para o servidor federal, situação de estados e municípios, conversão de tempo especial pelo Tema 942, prova da exposição e o que fazer quando o pedido é negado.

Ler o artigo →
Artigo

Advogado especialista em PAD

Defesa do servidor federal, estadual ou municipal no processo disciplinar: comissão, provas, defesa escrita, recurso, revisão e ação contra a punição.

Ler o artigo →
Artigo

Advogado de direito administrativo

Advogado de direito administrativo para servidor, candidato de concurso, militar e agente público: recurso administrativo, mandado de segurança e ação contra ato da Administração, online em todo o Brasil.

Ler o artigo →
Artigo

Aposentadoria especial do professor

Quem tem a redução de cinco anos, que tempo conta como magistério, as regras do professor federal e dos entes e como contestar a negativa.

Ler o artigo →
Artigo

Demissão a bem do serviço público

O que a nota significa nos estatutos que a usam, o impedimento de voltar ao serviço público e os prazos para contestar.

Ler o artigo →
Artigo

Hora-atividade do professor

O limite de 2/3 da jornada com alunos, como calcular o terço, quem tem direito e como cobrar as horas que passaram do limite.

Ler o artigo →
Artigo

Licença saúde do servidor público

Perícia, atestado, prazos, licença negada, desconto de faltas, limite de 24 meses e o caminho para readaptação ou aposentadoria.

Ler o artigo →
Artigo

RSC TAE indeferido

Pedido de RSC-PCCTAE negado ou com pontuação cortada: os motivos de indeferimento do Decreto 13.048/2026, o recurso em 30 dias e a ação judicial.

Ler o artigo →
Artigo

Servidor condenado perde o cargo?

Quando a condenação criminal leva à perda do cargo, os casos automáticos, a relação com o PAD e como afastar a perda no recurso.

Ler o artigo →
Artigo

Transposição dos ex-Territórios

Prazo de opção reaberto pela Lei 15.367/2026: quem tem direito, documentos, data limite, ausência de retroativo, indeferimento e recurso em 30 dias.

Ler o artigo →

Ver a página de servidor público →

Conte o que aconteceu. O primeiro passo é saber o prazo.

Envie pelo WhatsApp o documento que você recebeu (resultado, portaria ou intimação) e receba orientação sobre os próximos passos.

Falar no WhatsApp