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Audiência de custódia: como funciona e o que acontece

Depois de uma prisão em flagrante, a pessoa presa deve ser levada a um juiz em até 24 horas. Na audiência de custódia, o juiz decide se a prisão foi legal e se a pessoa responde ao processo em liberdade ou continua presa.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 22 de setembro de 2026 · 9 min de leitura

Prazo da audiência de custódia

O art. 310 do Código de Processo Penal manda fazer a audiência em até 24 horas após a prisão, com a presença do preso, do advogado ou defensor público e do Ministério Público. Desde a Lei 15.358/2026, o mesmo artigo determina que ela seja realizada por videoconferência em tempo real.

O que o juiz decide

Há três caminhos. O juiz relaxa a prisão, se ela for ilegal. Concede liberdade provisória, com ou sem fiança e com medidas cautelares, como comparecimento periódico ou proibição de sair da cidade. Ou converte o flagrante em prisão preventiva, se estiverem presentes os requisitos da lei. A audiência não julga se a pessoa cometeu o crime. As condições de quem sai solto e o que acontece se forem descumpridas estão em liberdade provisória.

Fiança antes e durante a audiência

A fiança pode ser resolvida antes mesmo da audiência. O delegado só pode concedê-la quando a pena máxima do crime não passa de quatro anos; nos demais casos, o pedido é dirigido ao juiz, que decide em 48 horas (CPP, art. 322). Há crimes em que a lei proíbe a fiança, como racismo, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e os crimes hediondos (art. 323). Isso não significa prisão obrigatória: a liberdade provisória sem fiança, com outras medidas cautelares, continua possível nesses casos, e é esse o pedido que a defesa leva ao juiz na audiência.

O valor, as hipóteses de dispensa para quem não tem condições de pagar e o que acontece com o dinheiro ao fim do processo estão explicados no guia sobre quem tem direito a fiança.

Quando o flagrante vira prisão preventiva

O juiz só converte o flagrante em preventiva se as medidas cautelares diversas da prisão forem inadequadas ou insuficientes (CPP, art. 310, II). A preventiva exige prova da existência do crime, indício suficiente de autoria e perigo gerado pelo estado de liberdade do investigado, e só pode ser decretada para garantir a ordem pública ou econômica, a instrução criminal ou a aplicação da lei penal (art. 312). A decisão precisa apontar fatos concretos e contemporâneos (art. 312, § 2º), e, em regra, a medida cabe nos crimes dolosos com pena máxima superior a quatro anos (art. 313, I). A conversão não pode ser feita de ofício: depende de pedido do Ministério Público ou de representação da autoridade policial (STJ, Súmula 676). A lei manda negar a liberdade provisória ao reincidente, a quem integra organização criminosa armada ou milícia e a quem porta arma de fogo de uso restrito (art. 310, § 2º), e, desde a Lei 15.358/2026, admite a preventiva para integrante de organização criminosa ultraviolenta, grupo paramilitar ou milícia privada (art. 313, V).

É sobre esses pontos que a defesa trabalha na audiência: vínculos com a cidade, trabalho, residência fixa, ausência de antecedentes e a suficiência de medidas como o comparecimento periódico. Se a preventiva for decretada, a revisão a cada 90 dias e o pedido de revogação estão no guia da prisão preventiva.

Audiência de custódia precisa de advogado?

A defesa técnica é obrigatória: se a família não contratar um advogado, a Defensoria Pública faz o atendimento. O advogado de confiança consegue conversar com o preso antes, verificar se houve violência ou ilegalidade na prisão e levar os documentos que mostram os vínculos da pessoa.

Está passando por isso agora? Conte o seu caso pelo WhatsApp

Como a família pode ajudar

Separe comprovante de residência, carteira de trabalho ou declaração do empregador, matrícula em curso, certidões de nascimento dos filhos e comprovantes de tratamento de saúde, se houver. Anote onde a pessoa está e o número do auto de prisão. Para esses casos, o plantão 24h atende a qualquer hora.

Linha do tempo depois da prisão em flagrante

MomentoO que acontece
PrisãoA pessoa é levada à delegacia, e é lavrado o auto de prisão em flagrante
ComunicaçãoJuiz, Ministério Público, família e Defensoria (se não houver advogado) são comunicados
Até 24 horasAudiência de custódia com o juiz
DecisãoRelaxamento, liberdade provisória ou prisão preventiva

A pequena quantidade tratada como tráfico

Um jovem de 22 anos, sem antecedentes, é preso em flagrante por porte de pequena quantidade de droga, que a polícia enquadra como tráfico. Na audiência de custódia, o advogado mostra que ele trabalha com carteira assinada, tem residência fixa e estuda à noite, e questiona o enquadramento como tráfico diante da quantidade. Nessa situação, a defesa pede liberdade provisória com comparecimento periódico, e os documentos levados pela família são o que permite ao juiz avaliar a suficiência dessa medida. Se o processo terminar em condenação, a primariedade e a ausência de vínculo com organização criminosa sustentam o pedido de reconhecimento do tráfico privilegiado.

Violência na prisão

A audiência de custódia também serve para o juiz verificar se houve violência ou maus-tratos na prisão. A pessoa presa deve relatar qualquer agressão, e o juiz pode determinar exame de corpo de delito e a apuração dos fatos. A ilegalidade na prisão pode levar ao relaxamento.

Audiência de custódia por videoconferência

Desde a Lei 15.358/2026, o próprio art. 310 do CPP diz que a audiência de custódia é feita por videoconferência em tempo real. A mesma lei trouxe garantias que a defesa deve cobrar: entrevista prévia, reservada e inviolável entre o preso e o advogado, presencial ou a distância (§ 9º); privacidade na sala, com o preso sozinho durante a oitiva, salvo a presença física do defensor (§ 10); espaço para a defesa e o Ministério Público intervirem e levantarem questões de ordem (§ 8º); e repetição completa da audiência se a falha de conexão for do tribunal ou dos serviços que ele contratou (§ 11).

Circunstâncias que o juiz deve examinar antes de converter o flagrante

A Lei 15.272/2025 incluiu no art. 310 do CPP uma lista de circunstâncias que recomendam a conversão do flagrante em preventiva: provas de prática reiterada de infrações, crime com violência ou grave ameaça, liberação anterior em outra audiência de custódia, infração cometida na pendência de inquérito ou ação penal, fuga ou perigo de fuga e perigo para a instrução ou para a prova (§ 5º). O juiz é obrigado a examinar essas circunstâncias de forma fundamentada (§ 6º). A defesa, por isso, deve chegar à audiência com elementos que afastem cada uma delas no caso concreto, como certidões, comprovantes de residência e de trabalho e a explicação de registros anteriores.

Fiança

Nos crimes que admitem fiança, o delegado pode concedê-la ainda na delegacia, quando a pena máxima não passa de quatro anos, e o juiz pode concedê-la nos demais casos permitidos. O valor considera a situação econômica da pessoa. Quem não tem condições de pagar pode ter a fiança dispensada, com outras medidas cautelares. Na embriaguez ao volante sem vítima, a pena máxima de três anos permite a fiança arbitrada pelo delegado.

Passo a passo para a família

  1. Descubra onde a pessoa está e qual crime foi atribuído a ela.
  2. Ligue para um advogado de confiança imediatamente.
  3. Reúna comprovante de residência, carteira de trabalho ou declaração de emprego, matrícula escolar e documentos de filhos dependentes.
  4. Informe ao advogado sobre doenças, medicamentos e antecedentes.
  5. Envie os documentos ao advogado antes da audiência.

Medidas cautelares mais comuns

MedidaO que significa
Comparecimento periódicoApresentar-se em juízo, no prazo fixado pelo juiz, para informar e justificar atividades
Proibição de contatoNão se aproximar da vítima ou de testemunhas
Recolhimento noturnoFicar em casa à noite e nos dias de folga
Monitoração eletrônicaUso de tornozeleira
Suspensão da função públicaAfastamento do cargo quando houver risco ligado à função

O descumprimento dessas medidas pode levar à prisão preventiva. Na violência doméstica, o descumprimento de medida protetiva é crime próprio (Lei 11.340/2006, art. 24-A), tratado na página sobre defesa do acusado na Lei Maria da Penha. Por isso, a pessoa solta deve entender bem cada condição e guardar os comprovantes de cumprimento. O escritório acompanha a audiência de custódia e, depois dela, os pedidos de revogação ou substituição das medidas; veja como funciona a atuação do advogado criminalista e o guia da prisão preventiva.

Em caso de prisão em flagrante, o plantão atende a qualquer hora pelo WhatsApp.

Falar com o escritório

Dúvidas frequentes

Perguntas sobre audiência de custódia

A família pode assistir à audiência de custódia?

Em geral, a audiência é restrita às partes. A família ajuda mais reunindo os documentos e passando as informações ao advogado.

O que acontece depois da audiência de custódia?

Se o juiz conceder a liberdade, a pessoa é solta e responde ao processo em liberdade, cumprindo as medidas fixadas. Se decretar a preventiva, ela segue presa, e a decisão pode ser questionada por pedido de revogação ou habeas corpus.

Quem não sai na audiência de custódia fica preso até o julgamento?

Não necessariamente. A prisão preventiva dura até ser revogada ou substituída por outras medidas cautelares, ou até o julgamento. O juiz pode revogá-la a qualquer tempo, de ofício ou a pedido da defesa, se os motivos que a justificaram deixarem de existir (CPP, art. 316). O juiz também deve revisar a necessidade da prisão a cada 90 dias, em decisão fundamentada (art. 316, parágrafo único). O STF decidiu, nas ADIs 6581 e 6582, que a falta de revisão no prazo não leva à soltura automática: o juiz deve ser provocado a reavaliar a prisão. Contra a prisão sem fundamento também cabe habeas corpus.

Quanto custa um advogado para a audiência de custódia?

Depende do que o caso exige nas primeiras horas: o crime atribuído, a urgência do pedido de liberdade e o volume de documentos a reunir. A proposta é informada por escrito antes do início do trabalho, e o plantão responde logo no primeiro contato. Veja como funciona a contratação.

A audiência de custódia acontece no fim de semana?

Sim. O prazo de 24 horas corre também em fins de semana e feriados, com o plantão judiciário.

O delegado pode dar fiança?

Sim, nos crimes com pena máxima de até quatro anos. Nos demais casos que admitem fiança, quem decide é o juiz.

Preciso contratar advogado para a audiência de custódia?

Não é obrigatório contratar, porque a Defensoria Pública atua na falta de advogado. O advogado de confiança, porém, pode preparar melhor a defesa.

Servidor público preso em flagrante pode ser afastado do cargo?

Sim. O juiz pode aplicar a suspensão da função pública como medida cautelar, quando houver risco de uso do cargo para novos crimes.

O que acontece se eu descumprir uma medida cautelar?

O juiz pode substituir a medida, aplicar outra em conjunto ou decretar a prisão preventiva.

O que falar na audiência de custódia?

A audiência não trata do mérito da acusação. A pessoa presa deve responder sobre as circunstâncias da prisão e sua situação pessoal, e seguir a orientação do advogado.

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