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Reforma militar por incapacidade definitiva: quem tem direito

O militar de carreira julgado definitivamente incapaz por causa ligada ao serviço, ou por uma das doenças graves previstas em lei, tem direito à reforma com qualquer tempo de serviço. Para o temporário, as regras ficaram mais restritas em 2019.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 29 de outubro de 2026 · 12 min de leitura

As causas de incapacidade no Estatuto dos Militares

O art. 108 da Lei 6.880/1980 lista as causas: ferimento ou doença ligados a campanha ou à manutenção da ordem pública, acidente em serviço, doença com relação de causa e efeito com o serviço, doenças graves listadas na lei e incapacidade sem relação com o serviço.

Militar de carreira

Julgado definitivamente incapaz por uma das hipóteses dos incisos I a V do art. 108, o militar de carreira é reformado com qualquer tempo de serviço (art. 109). O valor da remuneração na reforma varia conforme a causa e o grau da incapacidade.

Reforma do militar temporário

A Lei 13.954/2019 mudou as regras. Nas hipóteses de acidente em serviço, doença relacionada ao serviço e doenças graves, o temporário só é reformado se, além de incapaz para o serviço militar, for considerado inválido para qualquer atividade, pública ou privada. Essas regras foram questionadas no STF na ADI 7092, e o Plenário julgou a ação improcedente em sessão virtual encerrada em 21 de agosto de 2023, declarando a Lei 13.954/2019 formalmente constitucional e materialmente constitucionais os §§ 1º a 3º do art. 109 do Estatuto na redação dada por ela (relator o ministro Edson Fachin, com trânsito em julgado em 30 de novembro de 2023). A exigência mais rigorosa para o temporário, portanto, está valendo. Quem ficou incapaz antes da Lei 13.954/2019 pode ter direito às regras anteriores; por isso, a primeira coisa a verificar é a data do fato que gerou a incapacidade.

Para o temporário já licenciado, o marco da Lei 13.954/2019 é a data do licenciamento. No REsp 2.175.376-PE, julgado em 18 de março de 2025 (Informativo 844), a Primeira Turma do STJ decidiu que ao ex-militar temporário licenciado antes da vigência dessa lei se aplica a legislação vigente ao tempo do licenciamento, e que o eventual direito à reintegração e à reforma deve ser apreciado pelas disposições da Lei 6.880/1980 então em vigor. É decisão de Turma, não tese repetitiva.

Como contestar a junta de saúde

Reúna o atestado ou inquérito sanitário de origem, os prontuários, as atas de inspeção de saúde e os laudos dos seus médicos. Se a junta concluir pela capacidade, ou reconhecer a incapacidade sem ligação com o serviço, é possível recorrer administrativamente e depois pedir perícia judicial. O artigo sobre licenciamento ex officio trata do militar desligado durante o tratamento.

Reforma por doença mental, câncer, HIV e outras doenças do art. 108, V

O inciso V do art. 108 da Lei 6.880/1980 relaciona as doenças que geram incapacidade definitiva independentemente de ligação com o serviço: tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, lepra, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, mal de Parkinson, pênfigo, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave e outras moléstias que a lei indicar. A esclerose múltipla entrou na lista pela Lei 12.670/2012. A síndrome da imunodeficiência adquirida foi incluída por lei própria, que a considera causa de reforma militar na forma do art. 108, V (Lei 7.670/1988, art. 1º, I, c). Para o portador do vírus HIV, a Primeira Seção do STJ fixou no Tema 1.088 dos repetitivos, julgado em 11 de maio de 2022, que o militar de carreira, e o temporário antes da Lei 13.954/2019, tem direito à reforma por incapacidade definitiva independentemente do grau de desenvolvimento da doença, sem a remuneração do grau hierárquico imediatamente superior se não estiver impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho. O STF reconheceu repercussão geral sobre o tema do militar assintomático no Tema 1.310 (RE 1.447.945), em agosto de 2024, ainda sem julgamento de mérito, e o recurso ligado à tese do STJ ficou sobrestado até essa decisão.

Nessas hipóteses, o militar de carreira é reformado com qualquer tempo de serviço (art. 109), mas a reforma só é efetivada depois que a Junta Superior de Saúde homologa a inspeção que concluiu pela incapacidade definitiva (art. 108, § 2º). A remuneração calculada com base no soldo do grau hierárquico imediato depende, nesses casos, de o militar ser considerado inválido, isto é, impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho (art. 110, § 1º). Para o temporário, a reforma pelo inciso V exige a mesma invalidez para qualquer atividade laboral, pública ou privada (art. 109, § 2º, incluído pela Lei 13.954/2019).

A prova é médica e documental: laudos do especialista que acompanha o militar, exames, histórico de internações e as atas das inspeções de saúde. Quando a doença se agravou em razão do serviço ou foi desencadeada por ele, o enquadramento pode ser também o do inciso IV, e quando decorre de um evento em serviço, o tema passa a ser o do acidente em serviço militar, com o atestado ou o inquérito sanitário de origem como prova central. A reforma também repercute na pensão militar deixada aos beneficiários. Dois casos têm página própria: a reforma militar por doença mental, com depressão, esquizofrenia e transtorno bipolar, e a do militar com HIV.

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Reforma militar julgada ilegal pelo TCU

A reforma do militar das Forças Armadas depende ainda do registro no Tribunal de Contas da União, que aprecia a legalidade da concessão inicial e das melhorias posteriores que alterem o fundamento legal do ato (Constituição, art. 71, III; Lei 8.443/1992, art. 39, II). Um dos fundamentos de ilegalidade é a remuneração calculada com base no soldo do grau hierárquico imediato. O art. 110 da Lei 6.880/1980 a prevê para o militar da ativa ou da reserva remunerada julgado incapaz definitivamente por ferimento ou enfermidade ligados a campanha ou à manutenção da ordem pública e, nas hipóteses dos incisos III, IV e V do art. 108, para o que for considerado inválido, isto é, impossibilitado total e permanentemente para qualquer trabalho (§ 1º). O § 2º define o grau imediato: primeiro-tenente para guarda-marinha, aspirante a oficial, suboficial e subtenente; segundo-tenente para primeiro, segundo e terceiro-sargento; terceiro-sargento para cabo e demais praças.

Segundo o Acórdão 4.635/2026-TCU-2ª Câmara, a jurisprudência do Tribunal, desde o Acórdão 2.225/2019-Plenário, não estende essa vantagem a quem já estava reformado, por idade-limite por exemplo, quando sobreveio a invalidez. Nessa situação, a melhoria que elevou os proventos ao grau imediato pode ser julgada ilegal, e a irregularidade se comunica à pensão deixada aos beneficiários.

A defesa segue o mesmo rito descrito no guia da pensão militar: pedido de reexame em 15 dias, com efeito suspensivo (Lei 8.443/1992, arts. 33 e 48), e mandado de segurança no STF contra o acórdão (Constituição, art. 102, I, d). Na reforma, pesa o tempo decorrido. A Súmula Vinculante 3 assegura o contraditório quando a decisão do TCU puder anular ato que beneficie o interessado, com exceção da apreciação da concessão inicial; o STF fixou no Tema 445 o prazo de cinco anos, contados da chegada do processo ao Tribunal de Contas, para o julgamento da legalidade do ato inicial de reforma; e o acórdão que registrou o ato só pode ser revisto de ofício, com a oitiva do beneficiário, dentro de cinco anos da apreciação, salvo má-fé comprovada (Regimento Interno do TCU, art. 260, § 2º). As datas de chegada do ato ao TCU e do registro são, por isso, os primeiros documentos a levantar.

Fontes consultadas: Lei 6.880/1980, Estatuto dos Militares (Planalto); Lei 7.670/1988 (Planalto); Lei 13.954/2019 (Planalto); Constituição Federal (Planalto); Lei 8.443/1992, Lei Orgânica do TCU (Planalto); Regimento Interno do TCU (pesquisa do TCU); Acórdão 4.635/2026-TCU-2ª Câmara (pesquisa do TCU); STF, Tema 445 da repercussão geral (RE 636.553); STF, Súmula Vinculante 3.

Causas de incapacidade no art. 108 do Estatuto dos Militares

IncisoCausa
IFerimento recebido em campanha ou na manutenção da ordem pública
IIEnfermidade contraída em campanha ou na manutenção da ordem pública
IIIAcidente em serviço
IVDoença com relação de causa e efeito com o serviço
VDoenças graves listadas na lei
VIAcidente ou doença sem relação com o serviço

O acidente de moto a caminho do quartel

Um soldado temporário sofre acidente de moto a caminho do quartel, com lesão grave na coluna, e é julgado incapaz para o serviço militar, mas não para qualquer trabalho. Depois da Lei 13.954/2019, a reforma do temporário nessa hipótese depende de invalidez para qualquer atividade. Se o acidente tiver ocorrido antes da lei, ou se a lesão o tornar inválido, a situação muda. A data do acidente, o enquadramento como acidente em serviço e o grau da incapacidade definem o caminho.

Atestado de origem e inquérito sanitário de origem

São os documentos que registram a relação entre o acidente ou a doença e o serviço. Sem eles, a prova do vínculo fica mais difícil. O militar que se acidentou ou adoeceu em serviço deve pedir que o documento seja lavrado logo, e guardar cópia. Na falta do documento, outros registros, como escalas, boletins internos e prontuários, podem ajudar.

Reforma com remuneração de posto acima

O Estatuto prevê reforma com remuneração calculada sobre o soldo do grau hierárquico imediato em duas situações: incapacidade definitiva por ferimento ou enfermidade ligados a campanha ou à manutenção da ordem pública (art. 108, I e II, e art. 110, caput) e invalidez, isto é, impossibilidade total e permanente para qualquer trabalho, decorrente de acidente em serviço, doença com relação de causa e efeito com o serviço ou moléstia grave do art. 108, V (art. 110, § 1º). As regras dependem do enquadramento correto da incapacidade e da prova por atestado de origem ou inquérito sanitário de origem (art. 108, § 1º). Quem pode pedir, como se conta o prazo e o reflexo na pensão estão em reforma militar no posto acima.

Reforma de policial e bombeiro militar

Os militares estaduais seguem os estatutos e as leis de proteção social de cada estado, que também preveem reforma por incapacidade, com regras próprias. A lógica da prova é a mesma: relação com o serviço, grau da incapacidade e documentos médicos da época.

Inspeção de saúde e junta superior

O militar é avaliado pela junta de inspeção de saúde, que conclui sobre a capacidade e a relação da doença ou lesão com o serviço. Da conclusão cabe recurso a uma junta superior. O militar pode levar laudos dos seus médicos e pedir a consideração de exames que a junta não fez. Se o resultado continuar desfavorável, a perícia judicial é o caminho.

Convém guardar todos os resultados de inspeção, com as datas, porque eles mostram a evolução do quadro e ajudam a provar desde quando a incapacidade existia.

Na via judicial, o militar pode pedir, além da reforma, o pagamento das parcelas desde a data em que a incapacidade existia e, conforme o caso, indenização por danos. A perícia judicial é feita por médico nomeado pelo juiz, e o militar pode indicar assistente técnico para acompanhá-la. Levar à perícia todo o histórico médico, desde o fato que gerou a incapacidade, é o que costuma definir o resultado.

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre reforma militar por incapacidade

Fui licenciado doente. Ainda posso pedir a reforma?

Pode, se a incapacidade definitiva já existia no licenciamento e se enquadra no art. 108 da Lei 6.880/1980. Para o temporário, nas hipóteses de acidente em serviço, doença relacionada ao serviço e doenças graves do inciso V, a reforma exige também invalidez para qualquer atividade, pública ou privada (art. 109, § 2º, incluído pela Lei 13.954/2019). A prova médica da época é decisiva.

Policial militar também tem reforma por incapacidade?

Sim, pelas regras do estatuto e da lei de proteção social do seu estado.

Esquizofrenia dá direito à reforma militar?

Pode dar, quando a junta de saúde conclui que a doença causa incapacidade definitiva e a enquadra como alienação mental, uma das hipóteses do art. 108, V, da Lei 6.880/1980. O militar de carreira é reformado com qualquer tempo de serviço, e a remuneração com base no posto imediato depende de invalidez para qualquer trabalho. Para o temporário, a reforma exige essa invalidez. Laudos psiquiátricos e o histórico de tratamento são a prova central.

O TCU pode rever a minha reforma depois de registrada?

O acórdão que registrou o ato pode ser revisto de ofício, com a oitiva do beneficiário, dentro de cinco anos da apreciação, ou a qualquer tempo se houver má-fé comprovada (Regimento Interno do TCU, art. 260, § 2º). Já o julgamento da concessão inicial deve ocorrer em cinco anos contados da chegada do processo ao Tribunal de Contas (STF, Tema 445). Da decisão que nega o registro cabe pedido de reexame em 15 dias (Lei 8.443/1992, arts. 33 e 48).

Militar temporário tem direito à reforma?

Depois da Lei 13.954/2019, em várias hipóteses só se for considerado inválido para qualquer atividade. Fatos anteriores à lei podem seguir as regras antigas.

O que é incapacidade definitiva para o serviço militar?

É a conclusão da junta de saúde de que o militar não pode mais exercer as atividades militares de forma permanente.

Posso pedir revisão da reforma?

Sim, quando o enquadramento da incapacidade ou o cálculo dos proventos estiverem errados.

A junta de saúde pode mudar de conclusão?

Sim, em nova inspeção ou em recurso à junta superior, especialmente com novos exames e laudos.

Quanto tempo tenho para pedir a reforma na Justiça?

O prazo geral contra a União é de cinco anos, mas a contagem depende do caso, como a data do licenciamento ou da negativa administrativa.

Reforma por incapacidade é o mesmo que aposentadoria?

É a forma de inatividade do militar que corresponde à aposentadoria por incapacidade do servidor civil, com regras próprias: o Estatuto dos Militares (Lei 6.880/1980), nas Forças Armadas, e a lei de cada estado, nas polícias e nos corpos de bombeiros militares.

A reforma pode ser pedida pelo próprio militar?

A reforma é feita de ofício (Lei 6.880/1980, art. 104, nas Forças Armadas), mas o militar pode requerer a inspeção de saúde que a fundamenta e, se a junta negar a incapacidade, levar a questão ao Judiciário com laudos e pedido de perícia.

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