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Licença-prêmio em pecúnia: a conversão em dinheiro para o servidor aposentado

Quem se aposenta com licença-prêmio adquirida e não gozada, nem contada em dobro para a aposentadoria, tem direito a recebê-la em dinheiro. No serviço federal, o STJ firmou essa conversão em pecúnia no Tema 1.086 dos recursos repetitivos, sem exigir pedido administrativo prévio nem prova de que o gozo foi negado por necessidade do serviço. O prazo para cobrar é de cinco anos, contados da data da aposentadoria.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 4 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Licença-prêmio em pecúnia: quem tem direito

No serviço público federal, o STJ fixou no Tema 1.086 dos recursos repetitivos (Primeira Seção, julgado em 22 de junho de 2022) que o servidor federal inativo faz jus à conversão em pecúnia da licença-prêmio não fruída durante a atividade nem contada em dobro para a aposentadoria. A tese se apoia na redação original do art. 87, § 2º, da Lei 8.112/1990, no art. 7º da Lei 9.527/1997 e na vedação ao enriquecimento ilícito da Administração. A conversão independe de prévio requerimento administrativo, e o servidor não precisa comprovar que deixou de gozar a licença por necessidade do serviço.

Para servidores estaduais e municipais, o ponto de partida é o Tema 635 de repercussão geral do STF (ARE 721.001): é assegurada ao servidor público inativo a conversão de férias não gozadas, ou de outros direitos de natureza remuneratória, em indenização pecuniária, pela responsabilidade objetiva da Administração e pela vedação ao enriquecimento sem causa. O estatuto de cada ente define o período aquisitivo, a duração e as hipóteses que interrompem a contagem. Para o servidor em atividade, a questão não está resolvida: no mesmo processo, depois dos embargos de declaração, o STF admitiu o recurso para julgá-la em relação aos servidores em atividade.

O que aconteceu no serviço federal

A redação original do art. 87 da Lei 8.112/1990 previa que, após cada quinquênio ininterrupto de exercício, o servidor faria jus a três meses de licença a título de prêmio por assiduidade, com a remuneração do cargo efetivo. A Lei 9.527/1997 alterou o artigo e transformou o instituto em licença para capacitação: após cada quinquênio de efetivo exercício, o servidor pode, no interesse da Administração, afastar-se por até três meses para participar de curso de capacitação profissional.

A mudança não apagou o que já havia sido conquistado. Pelo art. 7º da Lei 9.527/1997, os períodos de licença-prêmio adquiridos até 15 de outubro de 1996 podem ser usufruídos, contados em dobro para efeito de aposentadoria ou convertidos em pecúnia no caso de falecimento do servidor, observada a legislação vigente até aquela data. É comum encontrar servidor com um ou dois quinquênios completos até essa data que nunca gozou nem pediu conversão. Se a contagem em dobro ainda tem utilidade depende das regras de aposentadoria aplicáveis a cada servidor.

A diferença entre os dois institutos

Licença-prêmio (períodos até 15/10/1996)Licença para capacitação
FinalidadePrêmio por assiduidadeParticipar de curso de capacitação
Depende do interesse da AdministraçãoNãoSim
DuraçãoTrês meses por quinquênioAté três meses por quinquênio
Exige comprovar cursoNãoSim

Conversão na aposentadoria, no falecimento e o imposto de renda

A redação original do § 2º do art. 87, mantida pelo Congresso Nacional, previa que os períodos de licença-prêmio adquiridos e não gozados pelo servidor que viesse a falecer seriam convertidos em pecúnia em favor dos beneficiários da pensão. Depois da Lei 9.527/1997, essa conversão continua assegurada pelo art. 7º da própria Lei 9.527, que remete à legislação em vigor até 15 de outubro de 1996.

Na aposentadoria, a conversão do servidor federal segue o Tema 1.086 do STJ, e a do servidor estadual ou municipal, o estatuto do ente lido à luz do Tema 635 do STF. Quanto ao imposto, a Súmula 136 do STJ estabelece que o pagamento de licença-prêmio não gozada por necessidade do serviço não está sujeito ao imposto de renda.

Nos estados e municípios, o benefício continua

Cada ente tem o seu estatuto, e muitos mantiveram a licença-prêmio com regras próprias de duração, período aquisitivo e fracionamento. A contagem em dobro para aposentadoria, porém, não pode ser criada para períodos posteriores à Emenda Constitucional 20/1998, porque o art. 40, § 10, da Constituição proíbe a contagem de tempo de contribuição fictício. A primeira pergunta é sempre qual estatuto rege o seu cargo, porque a resposta muda completamente conforme o ente.

Também varia a regra sobre o que interrompe a contagem do quinquênio. Faltas injustificadas, licenças sem remuneração e penalidades disciplinares costumam interromper ou suspender o período, e é comum o servidor descobrir isso só quando pede o benefício.

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Dois quinquênios adquiridos antes de outubro de 1996

Uma servidora federal tem registrados em seus assentamentos dois períodos de licença-prêmio adquiridos até 15 de outubro de 1996. Ela nunca gozou os seis meses correspondentes nem os usou em dobro na aposentadoria. Ao se aposentar, pede a conversão em pecúnia, e a Administração nega, sustentando que o instituto foi extinto. O pedido se apoia no art. 7º da Lei 9.527/1997 e no Tema 1.086 do STJ, que dispensa a prova de que o gozo foi impedido pelo serviço; a discussão passa a ser a contagem correta dos períodos e o valor.

O que levantar antes de pedir a conversão

  1. Assentamento funcional completo, com todas as licenças e afastamentos registrados.
  2. Data de ingresso e mapa dos quinquênios, marcando o que foi gozado e o que não foi.
  3. Ato de aposentadoria, com a data, que marca o início do prazo de cinco anos.
  4. Estatuto aplicável ao seu cargo, e as alterações que ele sofreu ao longo do tempo.
  5. Pedidos anteriores de gozo que tenham sido indeferidos, úteis sobretudo para servidores estaduais e municipais, cujo estatuto pode exigir essa prova.
  6. Para averbação em aposentadoria, a certidão de tempo de contribuição.

Pretensões contra a Fazenda Pública prescrevem em cinco anos (Decreto 20.910/1932, art. 1º), e, na conversão da licença-prêmio não gozada em dinheiro, o STJ fixou que esse prazo começa na data da aposentadoria (Tema Repetitivo 516, Primeira Seção, 25/04/2012), então a data do pedido importa. O escritório de advocacia para servidor público faz o levantamento dos períodos e o pedido administrativo ou a ação, com atendimento online em todo o Brasil. Veja também aposentadoria do servidor e abono de permanência.

Fontes consultadas: Lei 8.112/1990 (Planalto); Lei 9.527/1997, art. 7º (Planalto); STF, Tema 635 da repercussão geral (ARE 721.001); STJ, Tema 1.086 dos recursos repetitivos; STJ, Tema 516 dos recursos repetitivos; STJ, Súmula 136; Decreto 20.910/1932 (Planalto).

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre licença-prêmio em pecúnia

O servidor aposentado pode receber a licença-prêmio em pecúnia?

Sim. No serviço federal, o STJ fixou no Tema 1.086 que o servidor inativo faz jus à conversão em pecúnia da licença-prêmio não gozada nem contada em dobro para a aposentadoria, sem pedido administrativo prévio e sem provar que o gozo foi negado por necessidade do serviço. Nos estados e municípios, vale o estatuto do ente, lido à luz do Tema 635 do STF.

Qual o prazo para pedir a licença-prêmio em pecúnia?

Cinco anos contados da data da aposentadoria, segundo o STJ (Tema Repetitivo 516). Dentro desse prazo, podem ser cobrados os períodos adquiridos e não gozados, por mais antigos que sejam; passado o prazo, a pretensão prescreve.

Incide imposto de renda sobre a licença-prêmio indenizada?

Pela Súmula 136 do STJ, o pagamento de licença-prêmio não gozada por necessidade do serviço não está sujeito ao imposto de renda.

Licença-prêmio ainda existe no serviço federal?

Não para novos períodos. A Lei 9.527/1997 transformou o instituto em licença para capacitação. Os períodos adquiridos até 15 de outubro de 1996 continuam válidos (art. 7º da Lei 9.527/1997).

Meu município ainda tem licença-prêmio?

Pode ter. Estados e municípios têm estatutos próprios e muitos mantiveram o benefício, com prazos e regras diferentes dos federais.

Falta injustificada interrompe a contagem?

Costuma interromper ou suspender, conforme o estatuto aplicável. Muita gente só descobre isso no momento do pedido.

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