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Defesa escrita no PAD: como o servidor responde à indiciação

A defesa escrita é a peça em que o servidor indiciado responde, ponto por ponto, à acusação formalizada pela comissão. É o último momento antes do relatório final, e o que não estiver nela dificilmente será considerado depois.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 22 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

Em que momento a defesa escrita é apresentada

O processo disciplinar da Lei 8.112/1990 tem três fases: instauração, inquérito administrativo e julgamento (art. 151). O inquérito compreende instrução, defesa e relatório. Durante a instrução, a comissão ouve testemunhas, faz diligências e interroga o acusado (arts. 155 a 159). Encerrada essa etapa, se a comissão entender que houve infração, formula a indiciação, com a especificação dos fatos imputados e das respectivas provas (art. 161).

A defesa escrita vem depois da indiciação. Antes dela, o servidor é acusado de modo genérico. Com a indiciação, a acusação ganha contornos definidos: quais fatos, qual enquadramento, quais provas. É contra esse documento que a defesa se dirige, e por isso a primeira tarefa é lê-lo com atenção e compará-lo com a portaria de instauração e com os autos.

Prazo da defesa escrita no PAD

O indiciado é citado por mandado expedido pelo presidente da comissão para apresentar defesa escrita no prazo de 10 dias, com vista do processo na repartição (art. 161, § 1º). Havendo dois ou mais indiciados, o prazo é comum e de 20 dias (§ 2º). O prazo pode ser prorrogado pelo dobro para diligências reputadas indispensáveis (§ 3º).

SituaçãoPrazoBase legal
Um indiciado, citado pessoalmente10 diasArt. 161, § 1º
Dois ou mais indiciados20 dias, comumArt. 161, § 2º
Diligências indispensáveisProrrogação pelo dobroArt. 161, § 3º
Indiciado em lugar incerto, citado por edital15 dias da última publicaçãoArt. 163, parágrafo único
Rito sumário (acumulação, abandono, inassiduidade)5 diasArt. 133, § 2º, e art. 140

Os prazos da Lei 8.112 são contados em dias corridos, e não em dias úteis. O art. 238 exclui o dia do começo, inclui o do vencimento e prorroga para o primeiro dia útil seguinte o prazo que vence em dia sem expediente. Se o indiciado se recusa a assinar o ciente na citação, o prazo conta da data declarada em termo pelo membro da comissão, com a assinatura de duas testemunhas (art. 161, § 4º).

O pedido de prorrogação deve ser feito antes do fim do prazo e justificado com a diligência que se pretende realizar, como a obtenção de documento em outro órgão ou a análise de volume grande de provas.

O servidor precisa de advogado?

Não obrigatoriamente. A Súmula Vinculante 5 do STF estabelece que a falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição. O servidor pode se defender pessoalmente, e o art. 156 assegura o direito de acompanhar o processo pessoalmente ou por procurador.

A súmula diz apenas que a ausência de advogado não anula o processo. Ela não diz que a defesa sem advogado é equivalente. A defesa escrita exige leitura técnica da indiciação, conhecimento da jurisprudência sobre nulidades e prescrição e cálculo de prazos, e é nela que se perdem ou se ganham muitos processos.

Revelia e defensor dativo

O indiciado regularmente citado que não apresenta defesa no prazo é considerado revel (art. 164). A revelia é declarada por termo nos autos e devolve o prazo para a defesa (§ 1º). A autoridade instauradora designa, então, um servidor como defensor dativo, que deve ocupar cargo efetivo superior ou de mesmo nível, ou ter escolaridade igual ou superior à do indiciado (§ 2º).

A revelia no PAD, portanto, não significa confissão. O processo não segue sem defesa. Ainda assim, o defensor dativo é um colega de serviço, sem a obrigação de conhecer a fundo a matéria, e o servidor perde a chance de conduzir a própria defesa. Se o indiciado mudar de endereço, deve comunicar à comissão onde pode ser encontrado (art. 162).

Estrutura comentada da defesa escrita

Não existe forma obrigatória para a peça. A ordem abaixo segue a lógica de quem julga: primeiro as questões que impedem o exame do mérito, depois o mérito, depois a pena. A estrutura orienta a redação, mas não substitui a análise da indiciação concreta, que exige resposta própria.

  1. A peça é dirigida ao presidente da comissão. Um resumo objetivo da indiciação mostra que a defesa entendeu exatamente o que está sendo imputado.
  2. Nas preliminares entram os vícios do processo: comissão sem três servidores estáveis ou com presidente de nível inferior ao do indiciado (art. 149); membro impedido por parentesco (art. 149, § 2º); provas indeferidas sem motivação (art. 156, § 1º); interrogatório feito antes da oitiva das testemunhas, contra a ordem do art. 159; indiciação genérica, sem especificar fatos e provas (art. 161); prova emprestada sem autorização judicial ou sem contraditório (Súmula 591 do STJ). A Súmula 641 do STJ dispensa a portaria de descrever os fatos em detalhe, mas a indiciação não tem essa dispensa.
  3. A prescrição vem em tópico próprio, com as datas: conhecimento do fato pela autoridade instauradora, instauração, fim dos 140 dias e prazo reiniciado, conforme o art. 142 e a Súmula 635 do STJ. O cálculo passo a passo está em prescrição no PAD.
  4. No mérito, a defesa responde aos fatos, um a um: se ocorreram, se foram praticados pelo indiciado, se correspondem ao tipo disciplinar indicado, se houve dolo ou culpa quando o tipo exige. Enquadramento errado é defeito comum, sobretudo quando a comissão escolhe um inciso do art. 132 para uma conduta que caberia no art. 117, I a VIII, punida com advertência. As hipóteses das penas leves estão em advertência e suspensão do servidor.
  5. Em seguida, a defesa indica as provas dos autos que a favorecem, junta documentos novos e pede as diligências indispensáveis, com a justificativa de cada uma.
  6. A dosimetria é tratada em pedido subsidiário, para o caso de a comissão reconhecer alguma responsabilidade: o art. 128 manda considerar a natureza e a gravidade da infração, os danos ao serviço, as agravantes e atenuantes e os antecedentes funcionais. Nas hipóteses do art. 132, a Súmula 650 do STJ, aprovada pela Primeira Seção em 22/09/2021, estabelece que a autoridade administrativa não dispõe de discricionariedade para aplicar ao servidor pena diversa de demissão, de modo que o esforço, nesses casos, recai sobre o enquadramento.
  7. Os pedidos finais são o reconhecimento das nulidades, da prescrição, da inocência e o consequente arquivamento; subsidiariamente, desclassificação para infração mais leve e aplicação da penalidade mínima.

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Documentos novos e pedido de provas na defesa escrita

A defesa pode juntar documentos e pedir diligências. O art. 156 assegura ao servidor o direito de produzir provas e contraprovas, e o presidente da comissão só pode negar pedidos impertinentes, protelatórios ou irrelevantes, em decisão motivada (§ 1º). A prova pericial é indeferida quando o fato não depender de conhecimento especial (§ 2º). O pedido de prova deve explicar o que se pretende demonstrar e por que isso interessa ao julgamento.

Defesa em PAD por abandono de cargo e inassiduidade

No abandono de cargo e na inassiduidade habitual, o rito é sumário (art. 140), e o prazo de defesa é de cinco dias. Nesses casos, a defesa se concentra na intenção de faltar, exigida para o abandono, e na justificativa das ausências, com atestados, comunicações à chefia e registros de ponto. O tema está desenvolvido em abandono de cargo.

Depois da defesa: relatório e julgamento

Apreciada a defesa, a comissão elabora relatório minucioso, sempre conclusivo quanto à inocência ou à responsabilidade do servidor (art. 165). O relatório vai à autoridade que instaurou o processo, que julga em 20 dias (arts. 166 e 167). O julgamento acata o relatório, salvo quando contrário às provas dos autos, caso em que a autoridade pode, motivadamente, agravar, abrandar ou isentar (art. 168). Reconhecida a inocência pela comissão, a autoridade determina o arquivamento, salvo se a conclusão for flagrantemente contrária à prova (art. 167, § 4º).

O relatório deve enfrentar os argumentos da defesa. Se não o fizer, esse é um ponto a explorar no recurso e na via judicial. O escritório redige a defesa escrita e o recurso administrativo e, se for preciso, a ação judicial; a atuação está descrita em advogado para servidor público. O rito completo do processo está em PAD do servidor público, e as etapas anteriores em interrogatório no PAD e sindicância e PAD.

Fontes consultadas: Lei 8.112/1990 (Planalto); STF, publicação das Súmulas Vinculantes 5 e 6; STJ, Primeira Seção aprova as Súmulas 633, 634 e 635 (notícia oficial); STJ, Súmulas 591 e 592; STJ, Súmula 650 (notícia oficial); STJ, Enunciados das Súmulas do STJ (PDF oficial).

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre defesa escrita no pad

O prazo da defesa escrita no PAD é contado em dias úteis?

Não. Pelo art. 238 da Lei 8.112, os prazos são contados em dias corridos, excluído o dia do começo e incluído o do vencimento. Se o último dia cair em data sem expediente, o prazo passa para o primeiro dia útil seguinte.

O prazo da defesa escrita pode ser prorrogado?

Sim. O art. 161, § 3º, permite a prorrogação pelo dobro para diligências reputadas indispensáveis. O pedido deve ser feito antes do vencimento e explicar a diligência.

Posso apresentar a defesa sem advogado?

Pode. A Súmula Vinculante 5 do STF diz que a falta de advogado no PAD não ofende a Constituição. A súmula não torna a defesa técnica dispensável na prática; ela apenas impede a anulação do processo por esse motivo.

O que acontece se eu não apresentar defesa?

O servidor é declarado revel por termo nos autos, o prazo é devolvido e a autoridade designa um defensor dativo, servidor de cargo igual ou superior ou de escolaridade igual ou superior (art. 164).

A comissão é obrigada a responder a todas as teses da defesa?

O relatório deve mencionar as provas em que se baseou e ser conclusivo (art. 165). A omissão sobre argumento relevante da defesa pode ser apontada no recurso e fundamentar pedido de anulação.

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