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Servidor público pode ter empresa ou ser MEI?

O servidor público federal pode ser sócio de uma empresa, mas não pode administrá-la nem exercer o comércio. A regra está no art. 117, X, da Lei 8.112/1990: é permitido ser acionista, cotista ou comanditário, sem atuar na gerência.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 4 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

O que a Lei 8.112/1990 proíbe

O art. 117, X, proíbe o servidor de participar da gerência ou da administração de sociedade privada, personificada ou não, e de exercer o comércio. A exceção está no próprio texto: o servidor pode participar como acionista, cotista ou comanditário. Em outras palavras, pode investir e ter participação no capital, mas não pode gerir o negócio.

A lógica da regra é evitar que a atividade privada concorra com a dedicação ao cargo e gere conflito de interesses com a função pública.

Servidor público pode ser sócio de empresa?

Sim, como sócio que não administra. No contrato social, a administração deve ficar com outra pessoa, e o servidor não deve assinar pela empresa, negociar com clientes em nome dela nem tomar decisões de gestão. Constar como administrador no contrato social é um risco e deve ser corrigido. No Executivo federal, porém, a infração do art. 117, X, exige que o servidor tenha atuado de fato e de forma reiterada como gerente ou administrador da sociedade (Enunciado CGU nº 9, publicado no Diário Oficial da União em 16 de novembro de 2015).

Servidor público pode ser MEI?

O microempreendedor individual é, em regra, um empresário individual, nos termos do art. 966 do Código Civil (Lei Complementar 123/2006, art. 18-A, § 1º): ele próprio exerce e administra a atividade. Por isso, ser MEI esbarra na proibição do art. 117, X, que veda ao servidor exercer o comércio e participar da gerência ou da administração de sociedade privada.

A exceção da licença não remunerada

O parágrafo único do art. 117 afasta a proibição em duas situações: a participação em conselhos de administração e fiscal de empresas em que a União tenha participação, ou de cooperativas de serviços para os próprios membros; e o período de licença para tratar de interesses particulares, observada a legislação sobre conflito de interesses. Durante essa licença, o servidor pode administrar uma empresa.

Há ainda uma exceção fora da Lei 8.112/1990. O servidor federal que optou pela jornada reduzida com remuneração proporcional pode, enquanto durar a redução, exercer o comércio e participar da gerência ou da administração de sociedades, desde que haja compatibilidade de horário com o cargo (Medida Provisória 2.174-28/2001, art. 17). As demais proibições do art. 117 continuam valendo, e a regra não alcança quem acumula cargo de professor com cargo técnico das carreiras listadas no art. 3º da mesma medida provisória (art. 17, §§ 1º e 2º).

Qual a consequência de descumprir a regra?

A transgressão do art. 117, X, está entre as infrações punidas com demissão (art. 132, XIII). Por isso, a situação deve ser regularizada antes de qualquer apuração: alterar o contrato social para retirar o servidor da administração, ou encerrar a atividade. Instaurado o PAD, a defesa examina se houve atos concretos e reiterados de gestão, que o Enunciado CGU nº 9 exige para configurar a infração; o registro no contrato, sozinho, não basta. O caminho da defesa está em advogado para PAD.

Fontes consultadas: Lei 8.112/1990 (Planalto); Enunciado CGU nº 9, de 30/10/2015 (Base de Conhecimento da CGU); Lei Complementar 123/2006 (Planalto); Lei 12.813/2013 (Planalto).

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Conflito de interesses

Mesmo como sócio que não administra, o servidor não pode usar informações do cargo em favor da empresa, nem a empresa pode prestar serviços ao órgão em que ele atua ou manter relação que gere conflito com as suas atribuições. A Lei 12.813/2013 trata do conflito de interesses no Executivo federal e prevê consultas prévias à Comissão de Ética ou à CGU em casos de dúvida.

Servidor estadual e municipal

Estatutos estaduais e municipais costumam ter proibição semelhante, mas o texto e as exceções variam. Antes de abrir uma empresa, confira o estatuto do seu ente e, se houver dúvida, faça uma consulta formal ao órgão de pessoal.

Posso ter outro emprego privado?

Trabalhar como empregado na iniciativa privada não é a mesma coisa que administrar uma empresa. Em regra, é permitido, desde que haja compatibilidade de horários, não exista dedicação exclusiva no cargo e não haja conflito de interesses. O artigo sobre acumulação de cargos trata dos vínculos públicos.

O que é permitido e o que não é

SituaçãoServidor federal na ativa
Sócio cotista ou acionista, sem administrarPermitido
Sócio-administradorProibido (art. 117, X), salvo durante a licença para interesses particulares ou a jornada reduzida da MP 2.174-28/2001 (art. 17)
Empresário individual ou MEIProibido, pelo entendimento predominante
Administrar empresa durante licença para interesses particularesPermitido, observado o conflito de interesses
Empregado de empresa privadaEm regra permitido, sem conflito de interesses e com horários compatíveis

A servidora que quer abrir um restaurante com o marido

Uma servidora quer abrir um restaurante com o marido. O caminho seguro é constituir uma sociedade em que ela seja apenas cotista, com o marido como administrador no contrato social, e não atuar na gestão do negócio. Ela pode investir e receber lucros, mas não deve negociar com fornecedores, assinar contratos ou responder pela empresa. Se quiser gerir o restaurante, pode pedir licença para tratar de interesses particulares.

Como regularizar a situação

Se você já é sócio-administrador ou tem um MEI aberto, o caminho é alterar o contrato social para passar a administração a outro sócio, ou encerrar o MEI, antes de qualquer apuração. Guarde os comprovantes das alterações na Junta Comercial e na Receita Federal. Se houver dúvida sobre conflito de interesses, faça uma consulta formal antes de agir; no Poder Executivo federal, a consulta é dirigida à Comissão de Ética Pública ou à Controladoria-Geral da União (Lei 12.813/2013, art. 4º, § 1º).

Receber lucros como sócio

O servidor que é sócio cotista pode receber a distribuição de lucros da empresa normalmente, declarando os valores no imposto de renda. O que não pode é receber pró-labore pela administração, porque isso indicaria atuação na gestão.

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre servidor pode ter empresa ou ser MEI?

Servidor público pode ter empresa no nome?

Pode ter participação como sócio, acionista ou cotista. O que não pode é administrar a empresa ou exercer o comércio. No Executivo federal, a infração exige atuação de fato e reiterada na gerência (Enunciado CGU nº 9), mas o contrato social não deve indicar o servidor como administrador.

Servidor público pode ter CNPJ?

Como sócio de uma sociedade, sim, sem administrar. Um CNPJ de empresário individual ou MEI, em regra, não, porque pressupõe que o servidor exerça e gerencie a atividade.

Posso abrir empresa durante a licença sem remuneração?

Sim. A Lei 8.112/1990 afasta a proibição durante a licença para tratar de interesses particulares, observadas as regras de conflito de interesses.

Servidor público pode vender produtos pela internet?

Vender de forma habitual, como atividade comercial, esbarra na proibição de exercer o comércio. Vendas eventuais de bens próprios não configuram comércio.

A proibição vale para servidor aposentado?

Não. A proibição do art. 117, X, se aplica ao servidor em atividade.

Servidor público pode ser sócio de empresa que presta serviço ao governo?

A participação societária pode gerar conflito de interesses, especialmente se a empresa contrata com o órgão em que o servidor atua. É um caso para consulta formal antes de qualquer contrato.

Servidor municipal pode ter empresa?

Depende do estatuto do município. Muitos seguem a mesma regra federal: pode ser sócio, mas não administrador.

Servidor público pode ter loja online?

Como atividade comercial habitual, em que ele próprio vende e administra, esbarra na proibição de exercer o comércio. A análise depende de como a atividade é feita.

Servidor pode ser sócio de clínica ou escritório?

Pode ser sócio sem administrar, respeitadas as regras de conflito de interesses e as incompatibilidades próprias da profissão. Na advocacia, essas incompatibilidades estão no Estatuto da OAB, tema da página sobre servidor público pode advogar.

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