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Decisão comentada · Servidor público

Remoção por motivo de saúde e apoio familiar: o que decidiu o STJ

O STJ decidiu que a remoção por motivo de saúde é direito do servidor quando a junta médica oficial a recomenda, e que ter tratamento médico na cidade atual não impede a remoção se a junta concluir que o convívio com a família é decisivo para a recuperação (REsp 2.151.392, Segunda Turma, julgado em 14 de abril de 2026 e divulgado no Informativo de Jurisprudência 885).

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 19 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

O que diz a lei sobre remoção por saúde?

O art. 36, parágrafo único, III, "b", da Lei 8.112/1990 prevê a remoção a pedido, independentemente do interesse da Administração, por motivo de saúde do servidor, do cônjuge, do companheiro ou de dependente que viva às suas expensas e conste do seu assentamento funcional, condicionada à comprovação por junta médica oficial. A lei separa essa hipótese da remoção a pedido a critério da Administração (inciso II): na alínea "b", preenchidos os requisitos, a Administração não decide por conveniência, oportunidade ou concordância da chefia.

O que o STJ decidiu?

A Segunda Turma, com relatoria do ministro Marco Aurélio Bellizze, por unanimidade, firmou três entendimentos. Primeiro: a remoção por motivo de saúde do servidor, cônjuge, companheiro ou dependente constitui direito subjetivo do servidor e é ato vinculado, desde que o motivo de saúde esteja comprovado por laudo de junta médica oficial. Segundo: a existência de tratamento médico na localidade de lotação não impede a remoção quando, conforme o laudo da junta, o apoio e a convivência familiar forem fatores determinantes para a recuperação ou a estabilização do quadro clínico. Terceiro: o Poder Judiciário não pode substituir o juízo técnico da junta médica oficial para afastar, sem base pericial idônea, a conclusão de que a remoção é necessária.

O que havia no caso julgado

Segundo o Informativo 885, a junta médica oficial reconheceu as enfermidades, afirmou que a doença não era anterior à lotação, registrou que o quadro psicológico se desenvolveu porque o servidor permanecia sozinho na cidade de lotação e que a ausência de familiares comprometia a recuperação, e concluiu expressamente pelo deferimento da remoção. Mesmo assim, a remoção havia sido negada com o argumento de que o tratamento estava disponível na cidade de lotação.

Por que o apoio familiar passou a pesar

O STJ registrou que, em casos de transtornos psicológicos, o apoio e a convivência familiar são elementos relevantes para a recuperação e para a estabilidade do quadro clínico, e podem justificar a remoção para a localidade em que está a família. Por isso, a existência de hospital ou de médico na cidade atual, por si só, não afasta o direito quando a junta conclui que a família é necessária à recuperação. O fundamento da decisão está no laudo: é a conclusão técnica da junta que torna a remoção obrigatória, e ela goza de presunção de legitimidade e veracidade.

Quem pode ser o motivo da remoção?

PessoaRequisito
O próprio servidorLaudo da junta médica oficial
Cônjuge ou companheiroLaudo da junta e comprovação do vínculo
DependenteLaudo da junta, viver às expensas do servidor e constar do assentamento funcional

Por isso, atualize o assentamento funcional antes de pedir. Um filho ou pai dependente que não consta do cadastro costuma ser o primeiro motivo de indeferimento.

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A servidora em Manaus com toda a família em outro estado

Uma servidora federal lotada em Manaus desenvolve depressão grave após o nascimento do filho. Toda a família dela mora em Porto Alegre. O órgão nega a remoção porque Manaus tem psiquiatras e rede de atendimento. A junta médica oficial, porém, registra no laudo que o afastamento da rede familiar agrava o quadro e que a proximidade com a família é necessária para a estabilização. Com esse laudo, a negativa contraria o entendimento da Segunda Turma do STJ no REsp 2.151.392, e a servidora pode pedir reconsideração e, se necessário, ir à Justiça.

Como montar o pedido

  1. Reúna relatórios do médico assistente descrevendo o quadro, o tratamento e a importância do apoio familiar.
  2. Faça o requerimento de remoção com base no art. 36, III, "b", indicando a localidade pretendida e o motivo.
  3. Compareça à junta médica oficial com todos os documentos. Peça que o laudo trate expressamente da necessidade do convívio familiar.
  4. Se o pedido for negado, peça a fundamentação e recorra. A negativa que contraria o laudo da junta sem outra prova médica é o ponto mais forte do recurso.
  5. Se necessário, avalie mandado de segurança ou ação com pedido de liminar, especialmente quando o quadro de saúde se agrava com a demora.

Vale para servidores estaduais e municipais?

A decisão interpreta a Lei 8.112/1990, que rege os servidores federais. Servidores estaduais e municipais dependem do próprio estatuto, que pode ou não prever a remoção por saúde independentemente do interesse da Administração. Quando o estatuto tiver regra semelhante, o raciocínio do STJ sobre o valor do laudo da junta e do apoio familiar pode ser usado como argumento, sempre a partir do texto da lei local.

Remoção por saúde e as outras modalidades de remoção

O art. 36 da Lei 8.112/1990 prevê três modalidades: de ofício, no interesse da Administração; a pedido, a critério da Administração; e a pedido, independentemente do interesse da Administração. Nesta última estão a remoção para acompanhar cônjuge ou companheiro que foi deslocado no interesse da Administração (alínea "a"), a remoção por motivo de saúde (alínea "b") e a remoção por processo seletivo, quando há mais interessados do que vagas (alínea "c"). O pedido deve indicar com precisão a alínea em que se enquadra, porque os requisitos são diferentes. A hipótese do cônjuge é tratada no artigo sobre remoção para acompanhar cônjuge.

Quando a necessidade é temporária, como o acompanhamento de um familiar durante um tratamento, a licença por motivo de doença em pessoa da família pode ser a medida adequada. A remoção resolve situações duradouras, em que a mudança de localidade faz parte do tratamento.

O que o laudo da junta precisa registrar

O caso julgado mostra os pontos que deram força ao pedido: o diagnóstico, a relação entre o quadro e o afastamento da família, a informação de que a ausência de familiares compromete a recuperação e a conclusão expressa pela remoção. Um laudo que apenas confirma a doença, sem tratar da necessidade de mudar de localidade, deixa a Administração livre para dizer que o tratamento pode ser feito na cidade atual. Por isso vale levar à junta relatórios do médico assistente que tratem exatamente desses pontos.

Prazo para ir à Justiça

Se a Administração negar o pedido apesar do laudo favorável, o mandado de segurança deve ser impetrado em até 120 dias da ciência da decisão (Lei 12.016/2009, art. 23). Pedido de reconsideração não interrompe esse prazo (Súmula 430 do STF). Quando o laudo da junta é favorável e está documentado, o mandado de segurança costuma ser a via mais direta, porque a prova já está pronta.

O escritório redige o requerimento, o recurso administrativo e, se necessário, o mandado de segurança; veja como atua o advogado para servidor público. Veja também o guia de remoção por motivo de saúde e o artigo sobre readaptação do servidor público, para quando a limitação de saúde afeta as atribuições do cargo.

Fontes consultadas: STJ, notícia de 27/04/2026 sobre o Informativo (REsp 2.151.392); STJ, Informativo de Jurisprudência 885; Lei 8.112/1990, art. 36 (Planalto); Lei 12.016/2009 (Planalto); STF, Súmula 430.

Remoção, redistribuição e licença: qual pedir?

InstitutoPara que serveBase na Lei 8.112/1990
Remoção por saúdeMudar de localidade no mesmo quadro, por motivo de saúde próprio ou da famíliaArt. 36, parágrafo único, III, "b"
Remoção para acompanhar cônjugeAcompanhar cônjuge servidor deslocado no interesse da AdministraçãoArt. 36, parágrafo único, III, "a"
Licença por doença em pessoa da famíliaAfastamento temporário para cuidar do familiarArt. 83
Licença para acompanhar cônjugeAfastamento sem remuneração para acompanhar cônjuge deslocadoArt. 84

Quando a necessidade é permanente ou longa, a remoção costuma ser o caminho, porque mantém o servidor trabalhando e recebendo. A licença resolve situações temporárias. Em muitos casos, a licença é pedida primeiro, enquanto a remoção é analisada.

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre remoção por saúde e apoio familiar

A Administração pode negar remoção por saúde por falta de vaga?

Não, quando o motivo de saúde está comprovado pela junta médica oficial. A remoção por saúde independe do interesse da Administração.

Ter tratamento na cidade atual impede a remoção?

Não, se a junta médica concluir que o apoio familiar é determinante para a recuperação, segundo a Segunda Turma do STJ (REsp 2.151.392).

Posso pedir remoção pela saúde do meu pai?

Pela Lei 8.112/1990, o pai precisa ser seu dependente, viver às suas expensas e constar do seu assentamento funcional.

O juiz pode ignorar o laudo da junta médica?

Segundo a Segunda Turma do STJ (REsp 2.151.392), o Judiciário não pode substituir o juízo técnico da junta médica oficial para afastar, sem base pericial idônea, a conclusão de que a remoção é necessária.

A decisão vale para servidor estadual ou municipal?

Ela interpreta a Lei 8.112/1990, dos servidores federais. Para servidores estaduais e municipais, vale o estatuto local; quando ele tiver regra semelhante, o raciocínio do STJ pode ser usado como argumento.

Qual o prazo do mandado de segurança se o pedido for negado?

120 dias da ciência da decisão que negou a remoção (Lei 12.016/2009, art. 23). Pedido de reconsideração não interrompe esse prazo.

A remoção por saúde pode ser para outro órgão?

A remoção ocorre dentro do mesmo quadro de pessoal. Mudança para outro órgão depende de outros institutos, como redistribuição ou cessão.

Quanto tempo a Administração tem para decidir?

Não há prazo específico na Lei 8.112/1990. A Lei 9.784/1999 prevê prazo de até 30 dias para decidir após a instrução, prorrogável por igual período, com motivação.

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