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Peculato: o que é, tipos, pena e defesa

Peculato é o crime do funcionário público que se apropria de dinheiro, valor ou bem que tem em razão do cargo, ou o desvia em proveito próprio ou de outra pessoa. A pena é de 2 a 12 anos de reclusão, aumentada de um terço para ocupantes de cargo em comissão ou função de direção ou assessoramento, e o mesmo fato costuma gerar também um processo disciplinar e uma ação de improbidade.

Por Ricardo Feistler, mestre em Direito · Atualizado em 19 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

O que diz o Código Penal

O art. 312 do Código Penal pune com reclusão de 2 a 12 anos, e multa (pena aumentada de um terço para ocupantes de cargo em comissão ou função de direção ou assessoramento, pelo art. 327, § 2º), o funcionário público que se apropria de dinheiro, valor ou qualquer bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou o desvia em proveito próprio ou alheio. Para o direito penal, funcionário público é quem exerce cargo, emprego ou função pública, ainda que transitoriamente ou sem remuneração (art. 327).

Quais são os tipos de peculato?

O peculato-apropriação acontece quando o funcionário fica com o bem que estava sob a sua guarda, como o valor de uma arrecadação. O peculato-desvio acontece quando ele dá ao bem um destino diferente do previsto, em benefício próprio ou de terceiro. O peculato-furto (art. 312, §1º) é quando o funcionário não tinha a posse do bem, mas o subtrai ou concorre para que seja subtraído, valendo-se da facilidade que a qualidade de funcionário proporciona.

Peculato culposo

O §2º pune com detenção de 3 meses a 1 ano o funcionário que, por negligência, imprudência ou imperícia, contribui para que outra pessoa cometa o crime. A reparação do dano tem efeito importante aqui (§3º): feita antes da sentença definitiva, extingue a punibilidade; feita depois, reduz a pena pela metade.

Peculato de uso existe?

O uso momentâneo de um bem público, com devolução, sem intenção de ficar com ele, não se enquadra, em regra, nas condutas do art. 312, que descreve a apropriação, o desvio e a subtração do bem. A situação é diferente para prefeitos: o Decreto-Lei 201/1967 (art. 1º, II) tipifica como crime utilizar-se, indevidamente, em proveito próprio ou alheio, de bens, rendas ou serviços públicos. E o uso indevido de bens públicos pode ser infração disciplinar e ato de improbidade, mesmo sem ser crime.

Peculato e prevaricação: qual a diferença?

A prevaricação (art. 319) é retardar, deixar de praticar ou praticar ato de ofício contra a lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Não envolve apropriação de bens. A pena é bem menor: detenção de 3 meses a 1 ano, e multa.

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Um fato, três processos ao mesmo tempo

O peculato costuma gerar, ao mesmo tempo, processo criminal, processo disciplinar com possibilidade de demissão (Lei 8.112/1990, art. 132, I) e ação de improbidade com pedido de ressarcimento. Pela independência das instâncias, uma não depende da outra, mas o resultado de uma pode influenciar as demais. A defesa precisa ser pensada em conjunto.

Como é feita a defesa

A defesa costuma discutir se o funcionário tinha, de fato, a posse do bem em razão do cargo, se houve apropriação ou desvio com intenção, se o caso é de peculato culposo ou apenas de falha administrativa, e o valor efetivamente envolvido. A reparação do dano, quando possível, deve ser avaliada cedo, pelos efeitos que tem sobre a pena.

Tipos de peculato

TipoO que éPena
Peculato-apropriaçãoFicar com bem que tem em razão do cargoReclusão de 2 a 12 anos e multa
Peculato-desvioDar ao bem destino diverso, em proveito próprio ou alheioReclusão de 2 a 12 anos e multa
Peculato-furtoSubtrair valendo-se da facilidade do cargoReclusão de 2 a 12 anos e multa
Peculato culposoContribuir por negligência para o crime de outroDetenção de 3 meses a 1 ano

O caixa da autarquia usado para pagar dívida pessoal

Um servidor responsável pelo caixa de uma autarquia usa parte da arrecadação do mês para pagar dívidas pessoais, pretendendo devolver depois. Mesmo com a intenção de devolver, a apropriação do dinheiro que estava sob a sua guarda configura peculato-apropriação. Já o chefe que, por descuido, deixou de conferir o caixa por meses e permitiu o desvio pode responder por peculato culposo, e, nesse caso, a reparação do dano antes da sentença extingue a punibilidade.

Primeiros passos para quem é investigado

Não preste declarações sem orientação, nem no inquérito nem na sindicância. Reúna os documentos do setor, as normas internas sobre a guarda dos valores e os registros de quem tinha acesso. Muitos casos de suspeita de peculato envolvem falhas de controle compartilhadas, e a reconstrução de quem fazia o quê é a base da defesa.

O escritório atua na defesa criminal do servidor investigado ou processado por peculato, desde o inquérito, e coordena essa defesa com a do processo disciplinar; veja a página do advogado criminalista.

Quem é funcionário público para o crime de peculato

O conceito do art. 327 do Código Penal é mais amplo que o do direito administrativo. Inclui quem exerce cargo, emprego ou função pública, mesmo transitoriamente ou sem remuneração, e quem trabalha em entidade paraestatal ou em empresa contratada para executar atividade típica da Administração. Por isso, empregados de empresas públicas, comissionados e até terceirizados em certas funções podem responder por peculato.

Quando há suspeita de peculato, a reparação do dano também deve ser avaliada logo no início, pelos efeitos que pode ter sobre a pena e, no caso culposo, sobre a própria punibilidade.

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Dúvidas frequentes

Perguntas sobre peculato

Peculato é crime inafiançável?

Não. O peculato não está entre os crimes que a Constituição declara inafiançáveis. A fiança e a liberdade dependem das circunstâncias do caso.

Devolver o dinheiro extingue o crime de peculato?

Só no peculato culposo, e se a reparação for feita antes da sentença definitiva. No peculato doloso, a devolução pode influenciar a pena, mas não extingue o crime.

Estagiário ou terceirizado pode responder por peculato?

Pode, se exercer função pública, ainda que transitoriamente. O conceito de funcionário público do art. 327 do Código Penal é amplo.

Qual a pena do peculato?

Reclusão de 2 a 12 anos e multa, no peculato doloso, aumentada de um terço quando o autor ocupa cargo em comissão ou função de direção ou assessoramento (art. 327, § 2º, do Código Penal). No culposo, detenção de 3 meses a 1 ano.

Usar carro oficial para fins pessoais é peculato?

O uso momentâneo com devolução, em regra, não configura peculato para o funcionário comum, mas pode ser infração disciplinar e improbidade.

Peculato prescreve?

Sim. O prazo de prescrição depende da pena aplicada ou da pena máxima, segundo as regras do Código Penal. No peculato doloso, com pena máxima de 12 anos, o prazo é longo.

Peculato gera perda do cargo?

Pode gerar, tanto como efeito da condenação criminal, nos casos previstos no art. 92 do Código Penal, quanto pela demissão em processo disciplinar.

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